Sobre estar sempre ocupado e não ter tempo para si.

A história de um pai que não foi pai por causa da rotina de trabalho.

Eu me chamo Renato e vou contar pra vocês o que aconteceu comigo ano passado antes de eu iniciar terapia.

Hoje eu estou com 42 anos, trabalho com informática e sou pai de duas meninas, a mais nova com doze anos e a mais velha com 16. No momento estou solteiro, mas na verdade eu sou divorciado há 6 anos. e mantenho um relacionamento meio que não oficial com uma amiga do trabalho há uns 2 anos.

Ano passado eu tive um baque emocional quando descobri que minha filha mais velha, na época com 15 anos, estava grávida. Quando eu recebi a notícia me enfureci, fiquei com muita raiva, me senti enganado e, ao mesmo tempo, preocupado com o que seria do futuro dela. Ao ouvir de minha ex-esposa a notícia minha vista escureceu, do nada subiu uma dor de cabeça forte e os únicos pensamentos que vinham à mente era de que “eu queria estraçalhar o namorado dela”.

Eu perdi a cabeça, discuti com a mãe dela, nos xingamos, foi uma parada bastante horrível eu confesso. Mas, apesar de o início disso ter sido bem ruim, o pior foi quando minha filha desceu do quarto por ouvir nossos xingamentos e veio discutir comigo também. Lembro que foi a pior discussão da minha vida porque depois de ela endossar os xingamentos da mãe, ela jogou na lata que eu estava sendo oficialmente avisado da notícia por uma questão burocrática porque por ela eu nem ficaria sabendo de nada, já que meu papel na vida dela não significava nada, pois nunca fui seu pai.

Ao ouvir isso meu mundo caiu. Eu sempre me esforcei pra dar o melhor pras minhas filhas, sempre. Trabalhei duro, de segunda a segunda, fazia hora extra, mantinha meu emprego formal e também fazia bicos nos finais de semana. Elas sempre estudaram em escola particular, sempre fizeram cursos extras eu nunca deixei faltar nada.

Quando separei de minha esposa, minha filha mais nova tinha 6 anos, eu lembro que a gente definiu que eu veria ela uma vez na semana, mas por causa do trabalho isso aconteceu muito poucas vezes. Minha filha mais velha logo foi entrando na adolescência e eu figuei sem assunto com ela, não sabia o que conversar, fiquei cada vez mais distante de sua vida, como um estranho que vive ao lado, algo assim eu acho.

Eu sei que me tornei distante, ausente, priorizei o trabalho, mas foi tudo com a melhor das intenções. Sei também que o meu próprio casamento acabou pelo mesmo motivo, minha falta de tempo para com a família, mas eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser o trabalho. Foi isso que minha filha mais velha jogou na minha cara, ela disse que eu nunca fui seu pai porque já passei 2 meses sem vê-la e que eu me importava mais com o trabalho que com ela.

Doeu ouvir aquilo. Eu sai da casa delas com a cabeça atordoada. Passavam muitas ideias na mente e a maioria delas estava embaralhada. Eu concordava com a minha filha ao mesmo tempo que não encontrava outra alternativa. Fiquei ruminando essas ideias por umas 2 semanas. Queria ligar pra ela, saber como estava, mas não conseguia. Não saía da minha mente sua fala que eu não era seu pai porque me importava mais com o trabalho.

Depois disso tudo eu passei a ir pro trabalho com um desânimo total. Olhava as tarefas diárias com muito ódio e culpava todas elas pela distância que eu criei entre mim e minhas filhas. Desmarquei encontros com a namorada durante uns dois meses e depois desse tempo um amigo disse que eu não estava bem e sugeriu que eu procurasse uma ajuda. Foi aí que eu fui parar num consultório de psicologia.

Agora, depois de alguns meses de terapia, tenho ressignificado algumas coisas na minha vida. Já sou avô e tenho buscado me aproximar de minhas filhas novamente. É uma nova luta, não sei nem se conseguirei corrigir o tempo que passou. Mas, algo ficou claro pra mim depois de várias sessões: Foi eu quem decidi priorizar o trabalho da forma como fiz. Se eu tivesse a consciência que tenho hoje, talvez eu tinha conseguido encontrar outras alternativas pra organizar minha vida.

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Nenhum de nossos contos narram uma história real, tampouco retratam o caso de algum paciente atendido por nós. Trata-se de uma ilustração da vida cotidiana, de histórias que levam pessoas a procurar terapia/psicoterapia.

Se quiser falar conosco ou se estiver à procura de ajuda para si ou para alguém entre em contato.

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