Psicólogos (a) acreditam em deus?

Quando eu me formei em História ouvi de muitas pessoas ” Nossa! Vai acabar não acreditando em deus estudando História”. Tempos depois quando eu ingressei na faculdade de Psicologia também ouvi de muitos ” Agora é que você não vai acreditar em mais nada “.

Foto por Luis Quintero em Pexels.com

Bem, minha experiência pessoal é interessante pra me fazer pensar sobre a concepção coletiva de que um profissional de psicologia não pode ter uma crença. Sobre isso é importante esclarecer que crença é algo muito pessoal e intrínseco ao ser humano. Crer em algo é uma das experiências mais arquetípicas da humanidade. Observe ao seu redor, todos acreditam em alguma coisa, mesmo que não seja especificamente em um deus que se materializa da forma como comumente pensamos. No geral, as pessoas acreditam no dinheiro, no trabalho, nos estudos ou na ciência, no pensamento positivo, na família, etc. As pessoas simplesmente acreditam…

Desse modo, não seria diferente com um profissional de Psicologia. Quando ele acredita ou não na existência de um deus significa simplesmente que ele é tão humano quanto as outras pessoas. Seus estudos não precisam mudar sua crença, porque ela diz respeito à sua vida pessoal, de alguém que também chora, que ri, que tem medo, e que coloca sua fé em uma instância superior como qualquer pessoa poderia fazer.

Um psicólogo acreditar num deus não faz dele um profissional menos qualificado, isso não tem nada a ver. Eu esclareço isso porque muitas pessoas me questionam se sou ateu ao me procurar pra fazer terapia e eu sempre deixo claro: “Eu tenho minha fé, eu acredito em algo, mas isso passa longe da minha prática profissional pelo fato de meu fazer ser focado no cliente e não em mim”. As minhas questões são levadas para minha terapia pessoal e as questões dos meus pacientes, sejam elas quais forem, são analisadas segundo a ciência psicológica e não respaldado no que eu acredito ou penso na vida pessoal.

Eu tenho fé, esperança e acredito. Mas a vejo como algo tão pessoal que nem curto falar muito dela pra mantê-la comigo do jeito que eu gosto, bem íntima e desconstruída… rs.

Do ponto de vista ético, é necessário informar que não existe Psicologia religiosa de nenhum segmento. Veja, a Psicologia estuda os fenômenos religiosos em amplitude pessoal e coletiva, mas isso não a faz uma prática religiosa. Não existe Psicologia Cristã, Budista, Judaica, Candoblecista, etc. Apesar de trabalhar com as subjetividades, ela é uma ciência laica e por se amparar nos direitos universais do homem não se expressa ou defende algum tipo se religiosidade específica, na verdade ela compreende todas como possibilidades de vivências da espiritualidade.

Foto por Rodolfo Clix em Pexels.com

Sobre a psicoterapia, não cabe ao psicólogo influenciar a fé de ninguém. Esse é um ponto claro no código de ética profissional. Eu não posso, em hipótese alguma, falar que uma fé é melhor ou pior que a outra, tampouco sugerir que um paciente frequente determinada religião ou ouça o que tenho a falar da minha crença ou deixe de pensar que não existe forças sobrenaturais.

Se a fé é pessoal a falta dela também é e a mim cabe apenas respeitar e compreender qual o lugar dessa experiência na vida de quem me procura. Digo isso porque eu recebo aos montes pessoas no consultório com questões religiosas, vinculadas a segmentos específicos e também pessoas ateias. Já atendi pacientes com demandas especificas ligadas à religião e elas sempre foram tratadas conforme a ética profissional através de técnicas validadas para o manejo clínico psicológico. Já tive pacientes que eu inclusive percebi a importância que a fé tinha na vida da pessoa e o quanto a ausência dela afetada seu estado de adoecimento. Entenda, a religião pode ser pauta da Terapia e isso não configura uma psicologia religiosa, todas as experiências humanas podem ser trabalhadas em terapia e a religião não é diferente.

Se a espiritualidade faz parte de nós, se sempre acreditamos em algo, se nos conectamos ao sagrado de alguma forma, seria muita ingenuidade de nós psicólogos desprezamos tais conteúdos. Seria o mesmo que ensinar história para uma turma de 1° ano do ensino médio e ignorar que ela já estudou História ao longo de todos os anos anteriores. 🤷🏻‍♂️

Foto por Startup Stock Photos em Pexels.com

Reconhecer a instância espiritual das pessoas não significa fazer dentro do consultório rezas, cultos, orações, trabalhos, mantras, ou qualquer outra forma de manifestação. Mas sim dá crédito a uma parte da vida daquela pessoa e compreender o quanto de sentido a experiência tem pra ela. Isso é um material riquíssimo para minha análise e compreensão de quem atendo.

Finalizando e respondendo se o “psicólogos (a) acreditam em Deus?”, não esqueça que o psicólogo (a) é uma pessoa separada da profissão e na vida pessoal ele pode acreditar em tudo, até mesmo num unicórnio cor de rosa. Mas, profissionalmente, ele deve seguir as diretrizes de sua profissão que preconiza um fazer laico, livre de influências, respeitando a diversidade religiosa que existe na coletividade e é tão presente em território brasileiro.

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