Por que às vezes damos volta no mesmo assunto na Terapia?

Quando eu ainda era estudante de Psicologia e atendia pacientes na clínica escola da faculdade, no penúltimo período do curso, tive um paciente que ia as sessões praticamente para repetir as mesmas histórias evitando ao máximo falar sobre o que de fato o motivava a estar ali. Apesar disso, não faltava uma consulta se quer, e eu ficava bastante ansioso pra que o caso progredisse, sendo sempre puxado para a realidade por meu supervisor clínico que enfatizava ser a terapia do paciente e não minha.

Levei a situação acima pra minha terapia pessoal e, apesar de ser algo que me incomodava, percebi com o tempo que eu fazia a mesma coisa, ou seja, também evitava falar de certos assuntos esperando o momento propício pra isso.

Segundo a terapia cognitiva dos esquemas, esse comportamento de dar voltas durante o processo terapêutico diz respeito aos nossos esquemas individuais disfuncionais. Esses esquemas são temas emocionais que geram profundo sofrimento psíquico, então quando eles estão ativados em nossa mente, para não sentirmos a dor que eles proporcionam, tendemos a dar voltas nos temas e histórias, assim como darmos tempo pra conseguirmos encarar as situações. Algumas pessoas fogem dessas dores a vida toda, outras as enfrentam e encontram um novo sentido para a vida.

Este é um comportamento instintivo da espécie humana, sempre que nós vivemos uma situação desafiadora decidimos lidar com as dores evitando, congelando (fingindo que ela não existe) ou lutando para superá-las. Assim como um animal que é agredido e manifesta um comportamento como resposta à agressão, do mesmo modo nossa mente é programa pra agir frente aos acontecimentos, sobretudo os que nos geram dores emocionais.

Então, fazer terapia não é uma experiência fácil e nos coloca na posição de evitar, congelar ou fugir ao longo do processo. Apesar de muitas pessoas pensarem que é só sentar e falar, nem sempre o que vem nessa fala é de fato o que incomoda lá no íntimo. Na maior parte do tempo escondemos nossas maiores dores, perpetuando um comportamento disfuncional que por vezes já nos ajudou a superar dificuldades no passado.

Têm sentimentos que vêm à tona ao longo da terapia que você até se assusta por recordar que o sentiu um dia. É por isso que a maioria das pessoas vive no piloto automático. Eu mesmo precisei de certo tempo pra digerir certos conteúdos na minha mente e penso que ainda tenho muitas coisas pra encaixar na cachola, apesar de alguns temas hoje já estarem resolvidos.

Fazer psicoterapia é uma expressão de coragem, porque achar que ela é uma experiência fácil é um ledo engano. Sentir e sofrer para crescer poucas pessoas estão dispostas. Hoje eu penso até que muitas passarão o resto da vida se enganando buscando sentido aqui e ali sem saber ao certo quem é e para onde vai. Por que o “normal” é viver no piloto automático… Olhe ao seu redor, a maioria vive assim. Revirar suas estruturas para aprender a viver consigo mesmo é um comportamento diferente e poucos viverão isso, poucos saberão quem são de verdade porque descobrir isso é doloroso.

Por esse motivo nós terapeutas não nos assustamos quando alguém desiste da terapia, nós entendemos o que está acontecendo naquele momento, porque é quase que instintivo o comportamento evitativo da dor, embora ele mais prejudique do que ajude.

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