Como sair do armário?

Atendo no consultório de psicologia já há algum tempo um número considerável de pessoas de orientação sexual diversa. Confesso que, embora eu sempre tenha respeitado muito e estudado durante a graduação sobre a temática, o contato na prática é diferente e tem sido uma experiência muito rica… Isso tem me feito refletir ainda mais na frase de Jung: “Quando tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana” (JUNG).

Na prática ao atender meus pacientes eu acolho suas falas, ouço suas narrativas carregadas de angústias e de desesperos, de dores que muitas vezes eu mesmo pouco posso ajudar a diminuir de imediato. Apesar disso, o fato de eu recebê-los com entusiasmo, ouvi-los sem julgamento e com empatia e sempre estar empenhado a ajudá-los a organizar seus pensamentos e controlar seus sentimentos, em muitos casos, já é o suficiente e necessário para que eles encontrem equilíbrio, façam suas escolhas e sigam suas vidas.

Acredito que muitas pessoas possam achar o texto desnecessário e, por isso, é preciso lembrar que vivemos no país com o maior índice de assassinato de pessoas LGBTQIA+ no mundo e esse dado me faz pensar que importa sim falarmo e conhecermos mais sobre suas dores.

Aviso desde já que o intuito não é fazer aqui uma discussão teórica, acadêmica, conceitual, blá, blá, blá, blá, etc… Na verdade, este texto nasce do incômodo de um terapeuta que vive junto aos seus pacientes as muitas angústias da vida, como, por exemplo, a dificuldade de conseguir ser quem realmente é. No todo, entendemos que esta atitude muito pode ajudar a sociedade em sua dificuldade de aceitar as diferenças humanas que são muitas.

Então, eu divido com vocês algumas dessas angústias presentes no meu consultório, pois são elas que motivam os pacientes a me procurarem… Mas, não interpretem minhas palavras como uma verdade absoluta sobre a comunidade LGBTQIA+, muito pelo contrário, ela está longe disso. Eu espero apenas que elas sirvam de reflexão para algumas pessoas e se isso acontecer já estará sendo formidável.

Organizei os assuntos por meio de tópicos para torná-los mais didáticos, então, boa leitura.

  • Existe um medo imenso de pessoas LGBTQIA+ não serem aceitas pela família:

Faz parte das tarefas evolutivas do ser humano ser aceito pelos seus. Esse é um movimento natural que proporciona um crescimento saudável para cada um de nós. Precisamos nos sentir acolhidos no grupo em que somos criados, temos essa necessidade emocional e quando isso não acontece, algumas questões podem surgir para nós mesmos.

É assim que muitas das pessoas LGBTQIA+ se sentem, como se não houvesse acolhimento e aceitação por parte de alguns familiares, e é justamente por este motivo que muitas delas guardam a sete chaves, ou seja, em segredo, seus desejos sexuais. Ninguém sabe a não ser ela mesma o que se passa em sua mente. O medo em muitos momentos torna-se pavor literalmente, principalmente quando há possibilidade de esses familiares descobrirem sem ser através deles.

De modo geral, a família torna-se uma parte muito forte da dor dessa comunidade, afinal de contas, se quem os criou não os aceitam, imagina a sociedade?

Nesse sentido, aproveito e deixo um recado para os familiares de pessoas LGBTQIA+: Ame seu filho (a), irmão (a), primo (a), tio (a), ou seja lá qual for o vínculo familiar. O amor dele pra você é igual ao de qualquer outro membro de sua família e, em muitos casos, ele pode contar apenas com você nesta vida. Não o abandone, o mundo já faz isso de graça!

  • A religião ajuda complicar bastante a vida dessas pessoas:

Antes de tudo entenda que não estou falando mal de nenhuma religião, o intuito não é esse, porém, na prática, vejo discursos fundamentalistas de extrema religiosidade, contribuindo para complicar a vida dessas pessoas. Muitas religiões há literalmente uma demonização de algumas práticas sexuais e isso faz com que muitos LGBTQIA+ passem por situações difíceis em seu cotidiano. A angústia quanto à religião também se associa a família, pois em muitos casos pais religiosos têm bastante dificuldade de aceitar filhos LGBTQIA+ e assim apelam para o contexto religioso para interferir na orientação sexual dos filhos.

A religião em muitos casos acaba por ser uma grande influenciadora para o adoecimento mental dessa população, pois muitos deles foram criados no universo religioso e isso os colocada em uma situação complexa. Eu percebo uma certa confusão na mente deles quanto a isso, pois ao mesmo tempo em que não desejam fazer mais parte da comunidade religiosa por se sentirem excluídos, continuam crendo e se questionando sobre os ensinamentos recebidos e a vida que levam na atualidade. Além disso, se sentem incomodados pela forma como são tratados, muitas vezes rotulados como “diferentes”, ou até mesmo como uma aberração pelos extremistas e isso dificuldade muito em seu equilíbrio mental e emocional.

  • A bissexualidade pode ser de difícil compreensão até mesmo para quem é bissexual:

A bissexualidade pode ser de difícil compreensão até mesmo por quem é bissexual. Assim, de modo geral, a pessoa fica sempre naquela dúvida se divide essa informação com pessoas próximas ou se aceita guardar em segredo o que sente. É como se ela vivesse um grande paradoxo dentro de si que acaba sendo de difícil compreensão para ela mesma, por isso, muitas vezes, chega até o consultório em busca de ajuda.

A sensação é que lá no seu íntimo ela deseja muito se entender e se aceitar, ao mesmo tempo em que vê como mais fácil vivenciar “a heteronormatividade” em virtude do forte preconceito existente no país. Assim, em muitos casos, a dúvida sobre se declara/vive ou não a bissexual acaba sendo encoberta pela decisão de viver como se fosse heterossexual, enganando os outros e a si mesmo por toda uma vida, buscando bengalas que a afasta de desejos homossexuais.

Então o que é ser bissexual? Ninguém fala do assunto… é uma questão complexa mesmo…

  • Só gostariam de poder ser quem são de verdade:

Você que está lendo já se imaginou viver a sua vida como se ela fosse uma grande farsa? Pois é, por causa do grande preconceito e da violência que acomete os LGBTQIA+, muitos decidem por viver meio que de forma escondida. Isso mesmo. Eles preferem fingir que seus desejos não são reais e assim vão empurrando a vida com a barriga vivendo pautado num personagem de alguém heterossexual por exemplo.

Acontece muitas vezes de a angústia surgir e, por viver tanto tempo esse personagem, não conseguem se quer dar conta da origem de seu sofrimento, pois toda essa prática entrou no modo automático, tornando-se inconsciente. Com o passar do tempo, essa vida de máscara começa a ruir, a dor se instala e sustentar o personagem torna-se uma espécie de tortura diária inconsciente, assim a vida passa a ser angústia atrás de angustia.

  • Sair do armário pode ser uma das piores experiências de um LGBTQIA+:

Em minha experiência clínica com pacientes LGBTQIA+, nada foi mais marcante que o medo dessas pessoas em se tornarem quem elas são verdadeiramente. O fato de ter que contar pra alguém que ela é do jeito que é, é uma das experiências mais difíceis, mais marcantes e muitas vezes traumáticas.

É comum a desorganização de pensamentos em decorrência de tal questão. Além disso, a pessoa, às vezes, desenvolve sintomas de ansiedade e depressão, ou chega mesmo a pensar em suicídio em decorrência do sofrimento de ficar ruminando pensamentos catastróficos imaginando o momento em que expõe sua orientação sexual para o outro.

Muitos pacientes surgem também com sintomas psicossomáticos em decorrência da pressão emocional que sentem. Nesse sentido, viver tal experiência é se expor a um mixer de emoções e sentimentos que inclui o medo, tranquilidade, desespero pela possibilidade de abandono, o alívio, autocobrança excessiva, etc.

O medo da solidão inclusive está sempre presente e, embora muitos veem como necessário o ato de se abrir (sair do armário), é preciso atentar para o fato de que ninguém deve sentir-se obrigado a declarar ou dividir sua sexualidade com outras pessoas, essa deve ser uma decisão pessoal, motivada por diversos fatores, por isso, ela precisa trazer paz e não sofrimento para quem escolha fazer… A hora, o momento certo, tudo isso é diferente de pessoa pra pessoa, e cada um precisa está bem consigo mesmo pra fazer isso…

Bem, se você chegou até aqui já deve ter percebido que a ideia não era criar um manual pra ajudar alguém sair do armário. Peço desculpa se foi esse seu interesse ao lê-lo por completo. De qualquer forma, espero que essa reflexão tenha sido útil, se não pra você mesmo, para pessoas que você conhece e vivem esse dilema.

Seja quem você é de verdade… Vida como você quiser viver… Viva!

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