Você não está exigindo produtividade, você está sendo violento. Assédio moral é um tipo de violência psicológica.

Escrevo este texto por um motivo simples: Vivi quase que todos esses anos identificando casos em que gestores em busca de produtividade extrapolavam na cobrança exigindo resposta, muitas vezes, impossíveis de serem apresentadas por seus profissionais, reproduzindo então um padrão de comportamento típico de violência. Sim, isso é real e muito mais comum do que você imagina, apesar de errado, em muitos lugares isso é tido como normal porque entende-se que cada líder tem um perfil diferenciado de fazer gestão ou por um profissional de liderança ser tido como peça do mausoléu da empresa, ou seja, é colaborador presente há muito tempo e por isso tem prestígio no lugar.

Refletir sobre a questão é importante porque tal comportamento tem inúmeras consequências, sobretudo na esfera psicológica. Em relação aos impactados, é sempre bom frisar que a vítima é sempre quem mais sofre com a questão e essa visão é unânime dentro das discussões sobre o tema. Porém, há também interferências no clima da equipe, produtividade e por último e não menos importante, o clima da empresa em si.

Ao utilizar o termo violência para me referir as empresa pode até parecer um pouco estranho ou talvez até pejorativo, uma vez que é mais comum encontrarmos por aí artigos sobre assédio moral e sexual que de tanto ouvirmos falar sobre eles acabam por soar como menos agressivo em nossos ouvidos. Acontece que assédio moral e sexual é uma violência, o assédio moral em si é típico de violência psicológica e devemos trabalhar para que essa prática seja reduzida do contexto Organizacional. O assédio sexual também é complexo e já trabalhei em empresas em que ele era tido como algo indesculpável, ou seja, uma questão de caráter e quando ocorria acarretava em demissão do agressor.

Já ouvi muita gente dizer que é impossível reduzir ou acabar com a violência dentro das organizações porque ela é inerente ao ser humano, ou seja, faz parte de nós. Realmente a violência tem cunho social e faz parte de nós também, porém apesar de todos nós possuirmos instintos, somos uma espécie evoluída, dotada de reflexão, por isso, compreendo a violência mais como um processo cognitivo reproduzido socialmente que apenas comportamentos instintivos. Talvez acabar com a violência possa ser algo difícil, porém reduzi-la é possível e toda empresa devia ter um programa desenvolvido dentro do próprio setor de Recursos Humanos – RH com esse objetivo.

A violência em si é um tema amplo e muito complexo porque é construída no âmbito social, ela é um fato social e também é histórica, sendo assim, eu a vejo como um comportamento que sai de um contexto maior para penetrar em pequenos espaços sociais, como, por exemplo, empresas, escolas, grupos de amizade, clubes, salas de aulas, família, etc. A visão da saúde é de que a violência mata mais pessoas em nosso país que o próprio câncer, Aids, doenças respiratórias e metabólicas, infecciosas (NJAINE, ASSIS, CONSTANTINO, 2013, p. 15). Isso é grave!

Trabalhar para que o comportamentos violentos sejam reduzidos nas empresas é importante até por uma questão de natureza capitalista, pois quanto mais presente for a violência dentro do contexto organizacional menos resultados os colaboradores irão apresentar. Pode parecer balela, pode parecer bobagem de quem é de humanas, mas não é. Já vi profissionais saírem de reuniões em grupo tão envergonhados pela forma como foram tratados que se quer conseguiram se manter até o final do expediente. E aí você acha mesmo que ele entregou naquele dia tudo que podia? Claro que não.

Trabalhar essa questão é um grande desafio para a liderança no momento e costumo dizer que as empresas devem mesmo investir em um melhor recrutamento, inclusive com testes psicológicos e, sobretudo para cargos de gestão, pois esses são para mim um dos que mais sofrem dentro da empresa devido a pressão inerente ao cargo. Na prática às vezes tudo acontece como uma colcha de retalhos que costurada retalho por retalho, pois o líder tem um líder que cobra de forma errada, que passa para outro subordinado também de forma errada, que passa para outro de forma errada também e assim vai criando uma cultura de violência organizacional.

Mas, para ficar tudo alinhando, o que é violência psicológica?

Violência psicológica segundo Njainem Assis e Constantino, se traduz a partir de agressões verbais ou gestuais com o objetivo de aterrorizar, rejeitar, humilhar a vítima, restringir-lhe a liberdade ou, ainda, isolá-la do convívio social. Indica também a rejeição de pessoas, na inter-relação… (NJAINE, ASSIS, CONSTANTINO, 2013, p.39).

Quanto ao assédio moral, Heloani o chama de violência invisível, pois trata-se muitas vezes de uma violência sutil e perniciosa (HELOANI, 2003, p.58). Grosso modo e para efeito de identificação, seria cometer o que já foi dito acima no conceito de violência psicológica, porém colocando na prática poderia dizer que seria um chefe gritar com um funcionário, puxar a camisa, passar e-mails grosseiros, ridicularizá-lo na frente de outros colaboradores, dar demanda além do que é possível ser feito para aquele funcionário e para a função, retirar dele demandas de sua responsabilidade, enfim, uma série de questões.

Utilizo sempre o filme “O Diabo Veste Prada” para exemplificar o que seria assédio moral. Aquele comportamento da executiva “Miranda Priestly” não é correto para efeito de liderança de equipe, pois ela sujeita seus funcionários a situações vexatórias, fazendo os entender que aquele comportamento é correto, tamanha a importância de seu cargo e do prestígio da empresa em que se trabalha (olha a violência invisível aí). Posturas assim não é admirável em ninguém, tampouco em um executivo. Para efeito de identificação do assédio moral é importante salientar que tais comportamentos do agressor precisam ser costumeiros, ou seja, um fato isolado apenas não configura assédio moral, até porque um líder também é ser humano e por isso erra também.

As pessoas que sofreram ou sofrem com assédio moral apresentam alguns comportamentos já identificados de acordo com o gênero feminino e masculino. Por exemplo, a mulher se sente humilhada, expressa sua indignação com o choro, alimenta sentimentos de inutilidade, fracasso, apresenta tremores, palpitações, desenvolve depressão, insônia e até diminuição da libido. Já os homens, sentem-se revoltados, indignados, desonrados, com raiva, traídos, alimentam sentimento de vingança, sentem-se envergonhados diante da família, sentimento de fracasso, inutilidade e baixa autoestima (Cartilha do Ministério do Trabalho, 2020, p. 22 e 23).

Enfim, inúmeras são as situações que podem ser consideradas como violência e é preciso ficar claro que dentro dos grupos, das organizações, não existem máquinas e nem mesmo super-heróis. Humanizar o trabalho não significa ficarmos sentado esperando as pessoas entregarem resultados a hora que elas querem, não mesmo. Humanizar o trabalho é saber que apesar de tudo e de todas as dificuldades e dos números que devem ser apresentados, quem os apresenta é uma pessoa que possui questões pessoais e profissionais. Somos seres humanos, precisamos de desenvolvimento, acompanhamento, feedbacks, espaços para nos abrirmos, de uma liderança situacional quem sabe. Levamos para a vida aquilo que aprendemos dentro dos grupos a que pertencemos e como é bom ouvir de um ex-colega de trabalho que era muito bom fazer parte de sua equipe, imagina se isso for dito para um ex-líder por exemplo.

É importante refletir diariamente se você está cobrando produtividade ou se está sendo violento. Já pensou nisso?

Se você passou por alguma situação e quer compartilhar para ampliar a reflexão sobre o assunto deixe seu comentário ou compartilhe o texto com seus amigos.


Por: Maicon Moreira

Referências:  Njaine, Kathie, Constantino (Org). Impactos da violência na saúde. Rio de Janeiro: EEAD/ENSP, 2013.

Cartilha do Ministério do Trabalho: Assédio Moral.

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